A balança desceu oito quilos em três meses e a alegria é real. A pergunta que quase ninguém faz é: oito quilos de quê? Em 25 de agosto de 2026, o CREMERJ publicou um alerta da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia sobre um efeito colateral das canetas emagrecedoras que raramente aparece nos vídeos de antes e depois: a perda de massa muscular em quem usa o remédio sem acompanhamento.
O remédio funciona. O problema é o que ele faz com o apetite
Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, reduzem bastante a fome e atrasam o esvaziamento do estômago. É exatamente por isso que funcionam. Só que, na prática, muita gente passa a comer muito menos sem nenhuma orientação sobre o que comer.
O endocrinologista Marcio Mancini, membro da SBEM e coordenador do Departamento de Farmacoterapia da ABESO, explica que essa redução drástica leva a um consumo insuficiente de proteínas e vitaminas. O resultado é perda de músculo junto com a gordura e deficiência de micronutrientes. Segundo ele, quando o tratamento começa, a prioridade deve ser a densidade nutricional: não é só diminuir a porção, é garantir que aquela porção pequena seja rica em nutrientes.
O limite que vale conhecer. Alguma perda de massa magra acontece em qualquer emagrecimento, inclusive com dieta e com cirurgia bariátrica. O que a SBEM orienta é acompanhar essa proporção para que a perda de músculo não passe de 25% de todo o peso perdido. Em números simples: quem eliminou 10 quilos deveria ter perdido no máximo 2,5 quilos de músculo. A balança comum não diferencia uma coisa da outra, e é aí que o processo pode dar errado sem ninguém perceber.
Por que músculo importa tanto
Músculo não é assunto de estética. É ele que sustenta a força para subir a ladeira, carregar sacola, levantar da cadeira sem apoio. É também o tecido que mais consome energia em repouso, o que significa que perder músculo hoje deixa o corpo mais propenso a recuperar peso depois. Quem já passou por dietas muito restritivas e viveu o efeito sanfona conhece essa sensação de que, a cada tentativa, fica mais difícil.
Em pessoas mais velhas, o quadro tem nome: sarcopenia. E ela é perigosa, porque está ligada a quedas, fraturas e perda de autonomia. A nova Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, publicada pela ABESO em 2026, inclui justamente o rastreio sistemático de sarcopenia em idosos e em pacientes de risco entre suas recomendações.
Os sinais de alerta que a SBEM lista
Vale prestar atenção se, durante o tratamento, aparecer:
- Queda ou afinamento de cabelo.
- Sintomas gastrointestinais persistentes, como náusea, constipação, gases e estufamento mais intensos que o normal.
- Diminuição da força física ou da mobilidade nas tarefas do dia a dia.
- Alterações em exames de sangue, com queda de vitamina D, potássio, magnésio, ferro ou vitamina B12.
- Restrição alimentar excessiva, com perda completa do prazer diante da comida, o que pode indicar que a dose está alta demais para aquela pessoa.
Nenhum desses itens significa parar o tratamento por conta própria. Significa levar a informação para quem acompanha, porque quase sempre a solução é ajuste, não abandono.
O que realmente protege o músculo
Na mesa
As estratégias que Mancini indica são simples e cabem na rotina:
- Proteína primeiro. Comer a parte proteica logo no início da refeição, enquanto a saciedade precoce ainda não apareceu. A meta citada é de cerca de 1,2 grama de proteína por quilo de peso ao dia para adultos jovens e saudáveis, e cerca de 1,5 grama por quilo ao dia para idosos ou pessoas com risco de sarcopenia.
- Refeições pequenas, frequentes e densas em nutrientes. Fracionar ajuda a alcançar a meta sem forçar o estômago.
- Menos gordura nas refeições. Pratos muito gordurosos costumam piorar a náusea.
- Mais fibras e líquidos. É o caminho direto contra a constipação e o estufamento.
No corpo
Comida sozinha não constrói músculo, ela dá o material. O estímulo vem do treino de força. A Organização Mundial da Saúde recomenda para adultos de 150 a 300 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada e, além disso, atividades de fortalecimento muscular envolvendo os principais grupos musculares em dois ou mais dias por semana. Essa segunda parte é a que costuma ficar de fora da rotina de quem está emagrecendo, e é justamente ela que preserva a massa magra.
Não precisa ser academia sofisticada. Precisa ser carga progressiva e constância.
O que mudou na diretriz de 2026. A ABESO atualizou em 2026 a Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade, com 32 recomendações. O foco saiu do "peso ideal" e passou para melhora de desfechos clínicos, funcionalidade e qualidade de vida. O tratamento medicamentoso é indicado em IMC igual ou maior que 30, ou igual ou maior que 27 quando há complicações relacionadas à adiposidade. A diretriz também é explícita ao não recomendar fórmulas magistrais nem medicamentos sem respaldo em ensaios clínicos, e reforça que mudança de estilo de vida continua sendo parte obrigatória do tratamento, e não um pré-requisito para adiar o remédio em quem já tem indicação.
Como saber se você está perdendo músculo
Aqui não dá para adivinhar. Os recursos citados pela SBEM para acompanhar a massa magra são a bioimpedância, feita em consultório, e a densitometria de corpo inteiro, feita em laboratório. Existe ainda o teste de força de preensão manual, o famoso hand grip, que avalia a função muscular de forma rápida.
O ponto é medir mais de uma vez ao longo do tratamento. Uma única medição diz pouco. A comparação entre o início e os meses seguintes é o que mostra se a perda está vindo do lugar certo.
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Na Docctor Med, o programa de emagrecimento não se resume à prescrição. A avaliação inclui exames, análise da composição corporal e orientação alimentar, com retornos programados para ajustar dose e conduta conforme o corpo responde. É esse acompanhamento que separa um emagrecimento que se sustenta de um número na balança que volta atrás em poucos meses. Atendemos no Centro de Petrópolis, de segunda a sexta das 7h30 às 18h30 e aos sábados das 8h às 12h. Você pode conhecer o programa na nossa página de emagrecimento.
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Médica responsável técnica da Docctor Med Petrópolis.