A conta não fecha: a síndrome dos ovários policísticos atinge de 10% a 13% das mulheres em idade reprodutiva, mas até 70% delas não sabem que têm. O dado é da Organização Mundial da Saúde, que atualizou sua ficha técnica sobre o tema em janeiro de 2026. Traduzindo para o consultório, isso significa muita mulher convivendo há anos com ciclo irregular, acne teimosa ou pelos indesejados sem nunca ter recebido um nome para aquilo.
O nome engana, e muito
Quando se fala em ovários policísticos, quase todo mundo imagina cistos. Só que aqueles pontinhos que aparecem no ultrassom não são cistos de verdade, são folículos pequenos que ficaram parados no meio do caminho, sem amadurecer o suficiente para liberar um óvulo. A SOP é, na essência, um desequilíbrio hormonal, com produção maior que o normal de androgênios (os hormônios que costumamos associar ao corpo masculino, mas que toda mulher também produz).
Duas consequências práticas disso. A primeira: dá para ter SOP com ultrassom absolutamente normal. A segunda: ver "ovários policísticos" no laudo não fecha diagnóstico nenhum sozinho.
Como o diagnóstico é feito hoje
O diagnóstico exige pelo menos dois destes três critérios, depois de afastadas outras causas (tireoide, prolactina alta e alterações da suprarrenal entram nessa lista):
- Sinais de androgênio elevado, seja no exame clínico (pelos no rosto, tórax ou abdome, acne persistente, queda de cabelo com padrão masculino, pele muito oleosa), seja na dosagem de testosterona no sangue.
- Ciclos irregulares ou ausentes, refletindo a ovulação que não acontece com regularidade.
- Ovários policísticos no ultrassom, hoje definidos por 20 ou mais folículos em pelo menos um dos ovários, um limiar que subiu em relação ao antigo (eram 12).
O ultrassom deixou de ser obrigatório. A diretriz internacional de 2023, construída por mais de vinte sociedades médicas e liderada pela Universidade Monash, passou a aceitar a dosagem do hormônio antimülleriano (AMH) no sangue como alternativa ao ultrassom em mulheres adultas. Os dois exames não devem ser pedidos juntos, para evitar diagnóstico em excesso. E se a paciente já tem ciclo irregular somado a sinais de androgênio alto, nenhum dos dois é necessário: os dois critérios já bastam.
Em adolescentes a história é outra. Nem ultrassom nem AMH servem para diagnosticar SOP nos primeiros anos após a primeira menstruação, porque o ovário jovem naturalmente tem muitos folículos e o eixo hormonal ainda está amadurecendo. Nesses casos, o recomendado é reavaliar até oito anos depois da menarca, sem carimbar um diagnóstico precoce.
Os sinais que costumam passar batido
Muita paciente chega ao consultório atrás de uma coisa só e sai com o quadro inteiro montado. Os sinais mais frequentes:
- Menstruação que atrasa muito, vem espaçada ou some por meses.
- Acne que insiste depois dos vinte e poucos anos e não responde bem aos tratamentos de pele.
- Pelos grossos aparecendo em queixo, buço, ao redor dos mamilos ou na linha do abdome.
- Cabelo afinando no topo da cabeça.
- Ganho de peso concentrado na barriga, com dificuldade grande para emagrecer.
- Manchas escuras e aveludadas no pescoço, nas axilas ou na virilha, sinal clássico de resistência à insulina.
- Tentativas de engravidar que não dão certo, muitas vezes o motivo que finalmente leva ao diagnóstico.
Não é só sobre engravidar
Esse talvez seja o maior mal-entendido em torno da SOP. Ela é uma condição metabólica crônica que continua com a mulher depois da idade reprodutiva, e está ligada a risco maior de resistência à insulina, diabetes tipo 2, pressão alta, colesterol alterado, apneia do sono e gordura no fígado. Ciclos ausentes por longos períodos sem tratamento também aumentam o risco de espessamento excessivo e de câncer do endométrio, o que torna a regularização do ciclo uma medida de proteção, não apenas de conforto.
Os exames que valem a pena. A diretriz internacional recomenda avaliar o estado glicêmico de toda mulher com diagnóstico de SOP e considera o teste oral de tolerância à glicose de 75 g o método mais preciso, independentemente do peso. Depois disso, a reavaliação vem a cada um a três anos, conforme os fatores de risco de cada uma. O perfil lipídico completo (colesterol total, LDL, HDL e triglicerídeos) é indicado para todas no momento do diagnóstico, sem exceção por idade ou por IMC.
O que funciona no tratamento
Hábitos, com uma ressalva importante
Alimentação equilibrada e atividade física seguem sendo a base, e a diretriz faz questão de registrar algo que costuma passar despercebido: os benefícios existem mesmo quando não há perda de peso. Melhora do ciclo, da sensibilidade à insulina e da disposição aparecem antes de a balança se mexer. Vale saber disso antes de desanimar.
Anticoncepcional combinado
Os contraceptivos hormonais combinados ajudam a regular o ciclo, protegem o endométrio e reduzem acne e excesso de pelos. A escolha da fórmula depende do seu histórico e das suas prioridades, e em alguns casos são associados medicamentos antiandrogênicos para o hirsutismo.
Metformina e inositol
A metformina é o medicamento mais utilizado no Brasil quando o componente metabólico pesa, com efeito positivo sobre a ovulação e o ciclo, segundo a FEBRASGO. Quanto ao inositol, tão divulgado nas redes sociais, a diretriz internacional é honesta: pouco dano, algum efeito sobre parâmetros metabólicos, mas benefício clínico limitado em ovulação, pelos e peso. Para hirsutismo e gordura abdominal, a metformina leva vantagem. Como suplemento, o inositol também não tem o mesmo controle de qualidade e de dose de um medicamento, então conte ao seu médico se estiver usando.
A parte que quase ninguém comenta
Conviver com acne, pelos, oscilação de peso e dúvidas sobre fertilidade cobra um preço emocional. A SOP está associada a maior frequência de ansiedade, depressão e transtornos alimentares, e a diretriz orienta que a possibilidade de transtorno alimentar seja considerada independentemente do peso da paciente, justamente porque as conversas sobre dieta são constantes nesse contexto. Se essa parte está pesando, ela merece espaço na consulta tanto quanto os exames.
Avaliação de SOP na Docctor Med Petrópolis
Na Docctor Med, a investigação começa por uma boa conversa sobre o seu ciclo e o seu histórico, segue com o exame clínico e com os exames necessários para confirmar o diagnóstico e medir o risco metabólico. A partir daí montamos um plano que faça sentido para o seu momento, seja regularizar o ciclo, tratar acne e pelos, cuidar do metabolismo ou preparar uma gestação. Atendemos no Centro de Petrópolis, de segunda a sexta das 7h30 às 18h30 e aos sábados das 8h às 12h.
Ciclo irregular merece investigação, não paciência
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Médica responsável técnica da Docctor Med Petrópolis.