Se o seu dentista já disse "você tem bruxismo" e você guardou aquilo como um diagnóstico de doença, existe uma novidade boa. Em novembro de 2025, o Conselho Federal de Odontologia divulgou a atualização do consenso internacional sobre bruxismo, publicada na revista científica Journal of Oral Rehabilitation. A conclusão principal cabe em uma frase: bruxismo não é doença. É um comportamento motor, um hábito dos músculos da mastigação, e o que precisa ser avaliado são as consequências dele, não o rótulo.
O que é bruxismo, afinal
A definição é mais ampla do que a maioria das pessoas imagina. Não é só ranger os dentes. Bruxismo é qualquer atividade repetitiva dos músculos da mastigação, principalmente o masseter (aquele que salta na lateral do rosto quando você cerra os dentes) e o temporal. Isso inclui apertar, ranger e também mover a mandíbula sem que os dentes cheguem a se tocar.
O consenso mantém duas manifestações separadas pelo relógio biológico, e elas são bem diferentes entre si: o bruxismo do sono e o bruxismo em vigília. Uma pessoa pode ter as duas, uma só, ou nenhuma.
Por que dizer que não é doença muda alguma coisa
Muda o alvo do tratamento. Enquanto o bruxismo era tratado como doença, a lógica era combatê-lo, tentar fazer o hábito desaparecer. A atualização de 2025 vira essa lógica: o mesmo comportamento pode ser um fator de risco, um fator de proteção ou simplesmente neutro, dependendo da frequência, da intensidade e do contexto de cada pessoa. Tem gente que aperta os dentes há anos e não apresenta dano nenhum. Tem gente que aperta menos e já chega ao consultório com desgaste visível e dor.
O consenso também aposentou a expressão "em indivíduos saudáveis", que aparecia na versão de 2018 e confundia mais do que ajudava, e passou a padronizar termos como "repetitivo" e "sustentado" para descrever o que o músculo está fazendo.
Não é doença, mas também não é inofensivo. O consenso é direto ao classificar o bruxismo como fator de risco para disfunção temporomandibular (DTM), danos aos dentes e dores musculares na face. A pergunta que o dentista precisa responder não é "você tem bruxismo?", e sim "esse hábito está causando dano em você?".
Bruxismo do sono e bruxismo em vigília
O bruxismo do sono acontece enquanto a pessoa dorme, sem qualquer controle voluntário. Quase sempre quem descobre é alguém que dorme por perto e reclama do barulho, ou o dentista, que percebe o desgaste antes de o paciente sentir qualquer coisa. Um estudo de base populacional com adultos da cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, encontrou 8,1% de bruxismo do sono autorrelatado.
O bruxismo em vigília é o de dia, e costuma ser mais aperto do que rangido. É a mandíbula travada no trânsito da BR-040, os dentes cerrados na frente da planilha, o queixo tenso enquanto você rola o celular. Como acontece acordado, ele é o mais sensível a estratégias de percepção e de manejo do estresse.
Sinais que merecem uma avaliação
- Acordar com a mandíbula pesada, cansada ou dolorida, principalmente perto da orelha.
- Dor de cabeça que começa na têmpora logo cedo e melhora ao longo do dia.
- Dentes sensíveis ao frio sem que exista cárie para justificar.
- Dentes achatados na ponta, trincados, ou restaurações que quebram de novo e de novo.
- Marcas dos dentes na lateral da língua e uma linha esbranquiçada na parte interna da bochecha.
- Estalo, travamento ou dor ao abrir bem a boca.
- Alguém em casa reclamando do barulho durante a noite.
Como o diagnóstico é feito hoje
O consenso propõe uma avaliação multidimensional, o que na prática significa juntar três fontes de informação em vez de confiar em uma só. Primeiro, o relato do paciente, obtido em entrevista e em questionários. Depois, o exame clínico, em que o dentista avalia desgaste dentário, musculatura e articulação. E, quando o caso pede, o uso de instrumentos como a eletromiografia e a polissonografia, esta última especialmente útil quando existe suspeita de apneia do sono associada.
Nenhum item sozinho fecha o quadro. Dente desgastado, por exemplo, pode ser marca de um bruxismo que já passou, ou consequência de erosão por refluxo e por refrigerante, não de aperto.
O que realmente ajuda
Como o objetivo deixou de ser eliminar o hábito, o tratamento passou a mirar as consequências negativas, considerando o contexto biopsicossocial de cada paciente. É por isso que não existe protocolo único.
- Placa oclusal: protege os dentes e distribui melhor a carga da mordida. Ela não cura o bruxismo, e isso não é defeito dela, é a função dela.
- Sono e estresse: higiene do sono, atividade física e terapia cognitivo-comportamental têm papel reconhecido, principalmente no bruxismo de vigília.
- Revisão de medicamentos: alguns remédios podem intensificar o quadro, e esse ajuste é feito com o médico que prescreveu, nunca por conta própria.
- Apneia do sono: quando existe associação, tratar a apneia faz parte do plano. Vale lembrar que nem todo paciente com bruxismo tem apneia.
- Toxina botulínica no masseter: uma opção em casos selecionados, sobretudo quando há dor muscular importante ou aumento de volume do músculo. A Resolução CFO 198/2019 reconheceu a Harmonização Orofacial como especialidade odontológica e incluiu o uso da toxina botulínica na região orofacial entre as competências do especialista.
Desconfie de "tratamento definitivo para bruxismo". Desgastar dentes saudáveis para "acertar a mordida" ou partir direto para uma reabilitação completa por causa do hábito são decisões pesadas e, em boa parte dos casos, irreversíveis. O caminho seguro começa por diagnóstico, proteção e acompanhamento, e o consenso reforça que o manejo é individualizado e muitas vezes multiprofissional.
Odontologia na Docctor Med Petrópolis
Na Docctor Med, a avaliação odontológica inclui o exame do desgaste dos dentes, da musculatura da face e da articulação, além da conversa sobre sono, rotina e sintomas que você talvez nem associe aos dentes. A partir daí definimos junto com você o que faz sentido, seja uma placa, seja o encaminhamento para outra área. Atendemos no Centro de Petrópolis, de segunda a sexta das 7h30 às 18h30 e aos sábados das 8h às 12h.
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Cirurgiã-dentista responsável técnica da Docctor Med Petrópolis.